Vamos aprender sobre GORDOFOBIA

Por: Amanda Albero




O termo gordofobia é usado para designar o preconceito contra pessoas gordas. Apesar do termo ser recente, o preconceito contra pessoas gordas esteve presente desde o começo do século XX. A mídia teve um grandioso papel na disseminação de um corpo ideal, o que deu espaço para a pressão estética, o body shaming e outros termos que serão explicados mais à frente.
“Gordofobia é um termo muito recente, chegou somente ao final da minha adolescência”, explica Letícia Akemi, “Antes usavam o termo bullying, mas acho que o novo termo é mais apropriado. Não é uma brincadeirinha qualquer, estão fazendo piada com o corpo de alguém. Ser gordo é um ato político.”
Letícia Akemi é uma jovem de 22 anos, gorda, formada em jornalismo pela FIAM – FAAM. Atualmente faz, simultaneamente, especialização em história da arte e história do cinema. Além de estudar, hoje é CEO da Agência Astrovisual, uma agência de comunicação digital e produção de conteúdo.


Letícia Akemi ( @leticiakm )

“Para falar a verdade, foi a gordofobia que eu sofri desde pequena que me motivou a entrar na área do jornalismo”, conta ela, “A mídia sempre retratou a pessoa gorda como doente, ou somente como um alívio cômico. Eu queria quebrar esse padrão e mostrar que as pessoas gordas têm uma história, elas são mais do que um corpo.”
Letícia entrou na área jornalística bem nova: aos 15 anos ingressou na Revista Capricho, da Editora Abril, participando da “Galera Capricho”, um grupo de garotas selecionadas para ajudar na produção de conteúdo para a revista.
“Eu nunca fui fã da revista. Pelo contrário! Eu evitava ler pois achava o conteúdo tóxico, cheio de dicas para meninas magras e dicas de como emagrecer. Eu, claramente, não era o público alvo. Mesmo assim decidi entrar, mas como um “cavalo de Tróia”: iria mudar a revista por dentro.”
Ela ainda conta que teve algumas matérias barradas pela editora, citando uma, ela relembra que escreveu um texto com dicas para reconhecer um relacionamento abusivo. “Eu comecei a ganhar voz na revista uma vez que, sem pretensão, me colocaram para modelar um “look de festival”, representando uma banda. A partir daquele momento, recebemos diversas mensagens de leitoras falando que estavam felizes por terem publicado uma matéria com um corpo parecido com o delas.”
“Nós sempre soubemos que sofremos uma opressão por ser gordo”, conta Alexandre Lopes, “Quando eu descobri o termo eu achei que iriam fazer piadas, descredibilizar, mas não foi isso que aconteceu. Apesar de estarmos criando todo um movimento, ainda vai demorar para essa discussão atingir um patamar como o da homofobia, do machismo e do racismo, por exemplo”.
Alexandre Lopes, de 21 anos, é estudante de medicina veterinária e ativista no Instagram. Atualmente trabalha fazendo fotos e está sendo usado como modelo de corpo para uma novidade da Riachuelo.
“Infelizmente, a gordofobia é uma pressão socialmente aceita. É velada.”


Alexandre Lopes ( @dadoowxd )

A palavra "gordo", por si só, já é um tabu. São várias as variações para não dizer que alguém está fora do padrão: cheinha, fofinho, gordinha, grandinho. A gordofobia está tão enraizada na sociedade que as pessoas se elogiam ao emagrecer, há projetos para perder peso e incentivos vendidos em forma de fotos no Instagram.
“As pessoas não aceitam nem a palavra ‘gordo’, elas ficam procurando palavras diferentes”, conta Ana Paula Aguiar, “Eu não sou fofinha, eu sou gorda! Ainda tem aquelas pessoas que falam a típica frase ‘nossa, você é tão bonita de rosto’. Meu amor, eu não sou linda de rosto, eu sou maravilhosa como um todo!”
Ana Paula Aguiar é uma mulher de 35 anos, formada em publicidade e é fotógrafa. Começou a participar do ativismo gordo em 2017, e contou que foi algo natural: foi falando de suas vivências e as pessoas foram se identificando com suas experiências.
“Eu tinha uma relação muito conturbada com o meu corpo. Eu não me amava e tudo que eu fazia para com o meu corpo vinha de um lugar de ódio, e isso atingia todos os âmbitos da minha vida: eu não passava hidratante no corpo porque não gostava do que eu via, tinha uma baixa autoestima, o que fazia com que eu achasse que ninguém se sentiria atraído por mim e eu não cuidava de mim.”

Ana Paula Aguiar ( @itgordafab / @vaiternoivagorda / @anapaulaaguiarfotografia )

“Eu sempre fui gorda. O único período que eu fui magra foi enquanto eu era anoréxica”, Ana compartilha, “Passava horas sem comer, só comia quando não tinha desculpa que se aplicasse.”
Infelizmente, Ana Paula não foi a única que sofreu com transtornos por conta da gordofobia que sofreu. Raphaela Capassi, uma adolescente de 17 anos, conta que por conta dos insultos e piadinhas acabou desenvolvendo transtorno de ansiedade e síndrome do pânico.
“Quando eu era mais nova eu não tinha pessoas me dizendo que ser gorda não era o problema, como é o caso das crianças que estão entrando na adolescência agora. Cresci com a ideia de que ser gorda era algo errado, e minha autoestima foi, cada vez mais diminuindo.”

Raphaela Capassi ( @rapha_capassi )

“Por conta dessa baixa autoestima, com 13 anos eu fui para uma clínica de emagrecimento por uma questão estética. Tomava medicamentos de tarja preta, mas assim que saí da clínica voltei a engordar e tive uma cirrose no fígado – tive que fazer uma cirurgia bariátrica aos 15 anos.”
A psicóloga Gabriela Henke conta que o transtorno de ansiedade, a síndrome do pânico e a anorexia são alguns dos vários problemas causados a pessoas que são constantemente expostas à gordofobia. “Quando alguém recebe diversos estímulos negativos em relação à sua aparência, ela tende a se isolar, seja por vergonha ou pelo sentimento de insuficiência. Uma vez isolado, há diversas consequências, como depressão, ansiedade”, explica Gabriela.
“Estudos já mostraram que a taxa de suicídio entre mulheres gordas é maior em relação às magras. Além disso, já houve casos de aumento no consumo de bebida alcoólica; isso porque as pessoas usam o álcool para fugir da realidade em que se encontram. Os transtornos alimentares, muitas vezes causados pela baixa autoestima, estão relacionados ao desejo de atingir um corpo, muitas vezes, inatingível. Os mais conhecidos são a anorexia – quando o indivíduo evita comer, apesar da fome – e a bulimia – que consiste na pessoa que come, mas, sente uma culpa e induz o vômito.”

Gabriela Henke ( @psicologabrielahenke )

Gabriela, de 26 anos, é uma mulher gorda que, depois de um longo processo de aceitação, trabalha como psicóloga e ajuda as pessoas a se amarem. “Quando a gente vê na internet pessoas pregando o amor próprio, muitos acham que se amar é algo simples e linear, como se em um dia alguém acordasse e ‘puf’ me amo. Mas não é assim; pelo contrário, mesmo a pessoa que atingiu o estágio do amor próprio ainda tem dias onde não gosta do que vê!”, explica ela, “Se amar significa ter um carinho por si, e, mesmo nos dias onde não se sente bem, ainda sim se ama.”
            A nutricionista Amanda Fonseca explica que as pessoas estão com uma ideia errada de obesidade. “Muita gente na internet – que na grande maioria das vezes nem são nutricionistas – acha que quando alguém é gordo essa pessoa é automaticamente obesa, o que não é verdade.”, explica ela.
“Todos os rótulos envolvem biotipo, idade, estrutura óssea e outras variáveis. Além disso, a tabela que muitos conhecem e usam para se basear de acordo com seu IMC, é o ponto de vista de um autor. Há outras tabelas que outros estudiosos elaboraram. Seu biotipo influencia muito o que é considerável saudável para você, por isso não é interessante espalhar a ideia de um peso ideal. Sendo assim, é muito importante que as pessoas sempre procurarem um nutricionista. Não dê ouvidos para esses “médicos” de Instagram”, aconselha ela.

Amanda Fonseca ( @maandafonseca )

Outro preconceito relacionado à gordofobia é a gordofobia médica. Nos últimos anos, médicos de diversas áreas (que não estavam relacionados à peso) vêm incentivando pacientes a emagrecerem, quando, muitas vezes, o problema não está relacionado à alimentação ou sistema digestório em geral.
A influenciadora digital Juliana Santana, 27, conta que havia vezes que médicos passavam dietas que consistiam em ficar sem comer. “Além de ser extremamente irresponsável interromper a alimentação de uma criança, eles ainda receitavam sabendo do meu problema com gastrite. Ficar sem comer fazia meu estômago doer muito”, relembra ela.
Juliana trabalha criando conteúdo para o Instagram, que conta com mais de 50 mil seguidores. Na plataforma ela fala sobre sexualidade, moda e, ainda, sobre a militância gorda. “Meu perfil cresceu de forma natural. Eu sempre tive essa necessidade de me expressar e me comunicar, inclusive sou formada em rádio TV. Antes do Instagram eu tinha um blog no Tumblr onde eu já falava sobre sexualidade, migrei quando vi o potencial de crescimento do Insta”, conta Juliana, “Uso meu alcance para mostrar para as pessoas que pessoas gordas podem, sim, gostar de moda, de sexo e de coisas que pessoas magras também gostam”.

Juliana Santana ( @baddiesantana

Letícia Akemi também conta que sofre com uma condição genética que lhe causa problemas respiratórios. “Toda vez que ia ao médico ele mandava eu fazer exercícios como natação, para ver se eu emagrecia. Ele atribuía minha baixa capacidade pulmonar ao fato de eu ser gorda, sendo que, na verdade, é uma condição genética que até membros magros da minha família têm”, ela conta.
Ao ser questionada sobre a gordofobia médica, a nutricionista Amanda Fonseca diz que fica triste ao ver que há tantos profissionais, não só na área da nutrição, que são gordofóbicas. Inclusive, ela relata que ela mesma já sofreu gordofobia médica. “Quando eu tinha apenas 10 anos um médico me receitou remédios para emagrecer! Graças a Deus não tomei pois não tinha condições financeiras, mas no ponto de vista de uma nutricionista, é um absurdo”, conta ela.
“Como nutricionista, eu quero passar a mensagem de que você não precisa ser magro para ser saudável. Você deve comer o que leva nutrientes para o seu corpo, como um ato de amor, e não simplesmente para buscar atingir aquele corpo que impuseram.”, Amanda esclarece.
Quando a gordofobia está em pauta, um termo que muitas vezes é levantado é o body shaming, ou, em tradução livre, humilhação do corpo. É caracterizado como body shaming todo tipo de piada que tenha como intenção humilhar o corpo gordo e fazer a pessoa se sentir mal sobre seu corpo.
“As piadinhas são mais explícitas e direcionadas quando somos crianças”, conta Natacha Lemes, “Lembro de um episódio enquanto criança que me chamaram de ‘chupeta de baleia’. Eu não sei em que momento se tornou normal fazer piada com o corpo alheio.”
Natacha é uma mulher de 33 anos, formada em gastronomia, com cursos técnicos em turismo, agroindústria e marketing. Atualmente trabalha no jornal de sua cidade, Bandeirantes – Paraná, o Editora Folha do Norte, e como modelo. Além disso, Natacha é ativista digital e recebeu, no ano de 2020, o título de Miss Plus Bandeirantes.

Natacha Lemes ( @natachalemes )

“Quem me inscreveu no concurso, na verdade, foi uma das sócias da agência de modelos onde eu trabalhei, não era algo que eu aspirava. No fim, quando ganhei, fiquei muito feliz: é um título muito importante para mim, mesmo sendo de uma cidade tão pequena. Além disso, eu comecei a me amar ainda mais, me trouxe muita confiança e elevou minha autoestima”, conta Natacha.
A luta contra a gordofobia começou, principalmente, a partir do feminismo. O movimento que busca a igualdade entre gêneros levanta diversas pautas acerca do corpo feminino, isso porque a sociedade patriarcal criou um padrão de corpo inatingível, que é constantemente disseminado na mídia, seja nas novelas, livros, revistas etc. Dentre as várias questões discutidas em relação ao corpo, sendo algumas delas a presença de pelos no corpo, os vários tipos de cabelo, cor de pele, levantou-se a pauta da gordofobia. “Porque as mulheres são constantemente ensinadas que para serem alguém, para serem desejadas elas precisam ser magras?”, questiona Letícia Akemi.
É importante ressaltar que pressão estética é diferente de gordofobia! A pressão estética é uma questão social presente na vida de todas as mulheres, uma cobrança para atingir o padrão criado pelo patriarcado: olhos claros, cabelos lisos, cintura fina e roupas que performem feminilidade. A gordofobia está muito entrelaçada com a pressão estética, contudo, ela vai além de uma pressão social. Pessoas gordas, diariamente, enfrentam preconceitos no mercado de trabalho, em lojas de roupas, em restaurantes, em consultórios e estruturas públicas!
“O gordo é visto como nojento, preguiçoso, inválido”, conta Alexandre Lopes, “temos mais dificuldade para arranjar emprego por não estarmos dentro do padrão.”
“A gordofobia é ir a uma loja de departamento para comprar roupas que, às vezes, nem são para a gente, e vendedores falaram que não têm roupas para a gente lá”, fala Natacha Lemes.
“Em restaurante é assim: se o gordo come uma salada, ele está fazendo dieta, e se ele está comendo um macarrão ele está sendo desleixado. Em médicos a gordofobia é tanta que pessoas gordas morrem em casa com medo de ir ao médico!”, desabafa Ana Paula Aguiar, “Lembro muito bem de um dia ter caído da escada, tive que ir ao ortopedista e ele receitou uma bariátrica, assim eu não torceria tanto o pé.”
“O mundo não foi projetado para pessoas gordas”, fala Letícia Akemi, “Tem cinemas que não nos comportam, cintos de avião, catracas de ônibus, assentos de transportes públicos, bancos em barzinhos. Eu lembro de um episódio enquanto criança onde eu fiquei presa no balanço. O mundo ignora a existência de pessoas gordas.”
Tendo em vista todo o cenário gordofóbico, a luta contra a gordofobia ganhou maior visibilidade quando a jornalista e youtuber Alexandra Gurgel, em 2016, começou a falar mais sobre o tema. Por trás do usuário @alexandrismos Alexandra trouxe de forma didática conteúdos sobre gordofobia e criou a hashtag Corpo Livre. Nessa hashtag ocorre a inclusão de todos os corpos que fogem do padrão: gordos, com deficiência, cabelos de diversos tipos, carecas, todos!
“O que a Alexandra fez foi incrível, ela criou um movimento gigante que abraça a todos”, aponta Letícia Akemi.
E foi nesse contexto de início de conversa, de militância e de exposição que os entrevistados começaram a publicar seu conteúdo e ajudar outras pessoas a se amarem.
“Por incrível que pareça eu sou tímido!”, conta Alexandre Lopes entre risos, “Por mais que eu tenha esse lado super comunicativo eu tinha muito medo de me expor. O que me motivou a entrar no ativismo foi ver outras pessoas gordas se expondo e perceber que eles eram pessoas normais, assim como eu e, da mesma forma que eu me inspirava neles, pessoas poderiam se inspirar em mim!”
“Vi a internet como uma oportunidade, que, felizmente, eu agarrei. Fui crescendo naturalmente, hoje escrevo textos e faço ensaios artísticos para o Instagram. Eu faço meu conteúdo com o meu coração, falo o que sinto e se faço algum tipo de publicidade é porque eu realmente acredito na ideia que eu estou passando”, explica Alexandre. “Além disso, o movimento #BodyPositive fez eu me amar muito mais, sou ainda mais confiante, melhorou muito minha autoestima.”
Para Amanda Fonseca não foi diferente. “Entrei no ativismo no final de 2019, comecei compartilhando as vivências que eu tive ao longo dos anos em que passei na faculdade, workshops de nutrição. As pessoas começaram a se identificar comigo e compartilhar as histórias delas. Às vezes eu penso em desistir, mas quando eu recebo feedback eu lembro que meus seguidores são mais do que números. O que me motiva é fazer a diferença na vida de alguém e ser um referencial que eu não tive.”
Já para Ana Paula Aguiar, o ativismo foi algo que não era planejado. “Eu trabalho com fotografia desde 2010, fotografo casamentos, famílias e eventos. É uma experiência louca, cada pessoa tem uma bagagem”, conta ela, “Acho que foi em 2015 que tive contato com uma noiva que, dentre as recomendações que ela recebeu da cerimonialista, recebeu a orientação de fazer uma cirurgia bariátrica. Segundo ela, era para ela ‘casar linda’. Eu achei aquilo um absurdo e vi que era super comum. Por conta disso, eu parei um ano e meio com o meu Instagram profissional, onde eu postava fotos de casamentos. Eu não queria continuar perpetuando a imagem de que somente mulheres magras poderiam casar.”
“Entrei no ativismo em 2017 e desde então eu tenho um perfil onde divulgo fotos e histórias de noivas gordas, e posto fotos que eu tiro de pessoas gordas. A fotografia tem um poder imenso sobre a autoestima das pessoas, mas o mais importante, na verdade, é a experiência como um todo. Eu tenho a missão de fazer as pessoas se sentirem bem ao serem fotografadas, elas vão estar felizes e se amando, em sua melhor forma”, explica Ana Paula, “Apesar de ter perdido seguidores quando comecei a postar as fotos de corpos gordos, eu não me arrependo. Eu me sinto bem na comunidade #BodyPositive, eu me amo muito depois que entrei no movimento.”
Gabriela Henke foi gorda quase toda sua vida, é seu biotipo, e teve que fazer uma cirurgia bariátrica por questões de saúde. Depois de anos fazendo terapia entendeu sua relação com seu corpo e com o que comia e, depois de se formar em psicologia, ajuda outras pessoas a se amarem. “Hoje eu uso meu trabalho e minhas redes sociais para abrir um espaço de discussão para mostrar para as pessoas que elas podem ser felizes, independentemente do corpo que elas têm”, explica ela, “Espero poder fazer a diferença na vida daqueles que estão ao meu redor, e lembrar a todos que ser saudável e feliz não tem relação com o ser magro.”
Letícia Akemi não usa suas plataformas, especificamente, para o ativismo, porém já teve grande envolvimento quando a luta pelo amor próprio ainda nem tinha começado. “Na minha época da Capricho, em meados de 2015, desenvolvi o projeto ‘Amor 42’. Eu queria mostrar para as meninas que fugiam do padrão 36/38 que elas eram válidas, que elas poderiam ser vaidosas e se amar, sem se preocupar em atingir um corpo ideal”, conta Letícia. “Apesar do projeto ser meu, quem aprendeu mais fui eu. Queria acreditar na mensagem que eu passava, mas não era algo que eu normalmente fazia, e os comentários que eu recebi de meninas que estavam sendo afetadas pelo que eu pregava, me mostraram que eu, de fato, poderia me amar. A semente foi plantada e hoje eu me amo demais.”
Para a Miss Plus, Natacha Lemes, o Instagram foi um projeto que começou despretensiosamente. “Eu comecei no Instagram como uma brincadeira, mas comecei a receber comentários me incentivando a criar conteúdo para o Instagram e para o YouTube” conta ela, “Aos poucos o meu conteúdo foi se tornando uma inspiração para outras pessoas! Tenho conteúdos variados: as pessoas gostam de ver as roupas que eu gosto, gostam de ver alguns louvores que eu posto. Eu acabei percebendo que as coisas que eu posto impactam, de alguma forma, as pessoas”. Durante a entrevista, Natacha ainda falou um pouco sobre algo que está desenvolvendo para o segundo semestre de 2020, “Estou com projetos para o segundo semestre para mostrar o meu lado na moda, para mostrar como as gordas podem se vestir”.
É de extrema importância ressaltar que a hashtag corpo livre não romantiza a obesidade. “Não estamos incentivando ninguém a ser gordo”, explica Alexandre, “O que estamos fazendo é normalizar nossos corpos e mostrar que nós existimos. Somos felizes sendo do jeito que somos!”.
Falar sobre a gordofobia é quebrar um preconceito sobre não vai além de uma característica externa. É relembrar as pessoas que o valor delas não está baseado no número que elas vestem, e que ser gordo jamais deveria impedi-las de fazer algo.
Quebrando os padrões e ignorando as críticas, tanto Natacha quando Raphaela trabalharam como gastrônomas. Apesar de ter apenas 17 anos, Raphaela já faz salgados e vende por meio do seu perfil profissional, o @salgados_da_rapha. É interessante ver que, apesar de estarem envolvidas na mesma área, elas têm experiências diferentes com a gastronomia.
Natacha conta que sua experiência foi totalmente positiva. “Se eu sofri alguma gordofobia por ser gorda e estar na cozinha eu não percebi. Eu amava o que eu estava fazendo, só não continuei no ramo da gastronomia porque precisava de muito investimento.”
Já Raphaela conta que por estar envolvida com a cozinha, muitos a julgavam falando que ela só cozinhava para comer. “É complicado porque, com esse preconceito instaurado na sociedade, eu acabei me questionando diversas vezes se eu era boa o suficiente na cozinha”, ela relembra, “Eu sou boa o suficiente, sim, e se eu quiser comer o que eu preparo eu irei comer. É um absurdo subestimarem alguém somente pelo corpo que essa pessoa tem.”
A partir do momento que as pessoas se educam sobre algo, é possível mudar a forma como a sociedade se comporta. Como pessoas magras podem ajudar na luta contra a gordofobia? A principal ferramenta para ajudar a combater a gordofobia é se policiar para não usar termos e perpetuar falas gordofóbicas.
            Com a ajuda dos entrevistados, foi elaborada uma lista de palavras e situações que são comuns do dia a dia, mas só ajudam a perpetuar o preconceito.
           
-  Gordice.
“O que é fazer gordice? É comer algo que você gosta? Por que você associa ao gordo comer algo que não é saudável?!”, questiona Ana Paula.

- Dicas de moda.
“Sabe quando as pessoas falam ‘não use listras horizontais, elas te deixam mais gordo’ ou ‘use um preto básico, vai disfarçar as gordurinhas’? Qual é o problema em estar gordo? Qual é o problema em ter gordurinhas? Por que eu tenho que disfarçar o meu corpo?”, indaga Letícia.

- Você é tão linda de rosto, se emagrecer vai ficar linda!
“Quando falam isso eu fico indignada! Como você acha que está elogiando alguém sendo que parece que minha cabeça é algo à parte do meu corpo?”, levanta Juliana.

- Eu só estou me preocupando com sua saúde.
“Não, você não está. Não tem como você, só olhando o meu corpo, saber se eu estou doente ou não. Você não sabe dos meus exames, e talvez você nem seja médico!”, rebate Alexandre.

- Como você emagreceu! Está linda/o!
“Eu sou linda, magra ou não. Parem de usar magra como elogio!”, aponta Raphaela.

            Há muitas outras situações que você pode aprender se educando, conversando com pessoas gordas e ouvindo as experiências delas.

            Leia, escute, aprenda!


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Comentários

  1. Adorei sua matéria... Bem redigida e abrangente! Parabéns... 👏👏🤩

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  2. Quero ver essa matéria em todos os lugares, estampada na testa das pessoas!

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